Sejamos bocós!

Por Edner Gustavo

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Abílio e Palmiro em seu quintal

Nossa brincadeira “séria” com os bocós começa nas férias de junho de 2018. Lembro de estar, depois de um ensaio de “Lápide”, descendo a Afonso Pena junto com o Marcelo e o Manolo, indo pegar ônibus (Oh, vida!). Quando chegamos no trecho em que eu tomava outro caminho, eles me disseram que queria que eu fizesse parte do novo projeto do Fulano. Um projeto que teria como universo a obra do Manoel de Barros. Pensa na felicidade e um frio na barriga. Pediram para eu pensar antes de responder. Levei dois segundos e ataquei com um enorme SIM. Sim! É lógico que eu quero! Ali, naquele trecho, naquela noite de inverno, mais ou menos onze horas da noite os bocós começaram a surgir.

Pensa na felicidade e um frio na barriga.

Livro sobre nada (Manoel de Barros)

Minhas férias foram de viver memórias e leituras. Li, reli, li de novo e de novo “Livro Sobre Nada”, de Manoel de Barros. Assisti documentários. Pesquisei a vida do nosso poeta. Estava encantando com tudo aquilo.


Um dos seus primeiros poemas desse livro dizia “As coisas para nós tinha uma desutilidade poética. Nos fundos do quintal era muito riquíssimo o nosso dessaber”. Começamos buscando a simplicidade da nossa infância, minha, do Manolo e seus alunos, dos meus irmãos, pais.... Enfim, coisas inúteis, mas cheias de coisas nossas.






Escrevemos vários textos narrativos falando de sonhos, brincadeiras, o que ouvimos o que vivemos. Começamos a “transver” o óbvio e com simplicidade. Uma estrada com várias curvas e muitas lombadas, virou uma “filha de sucuri gigante com um camelo cheio de corcovas”.

Ilustração de Livro sobre nada (Manoel de Barros)

Estávamos entregues ao “nada” de Manoel de Barros. Que delícia! Apesar dos momentos prazerosos os trabalhos nas mesas de estudos eram longos e cansativos. Discutíamos sobre tudo. Principalmente sobre nossa responsabilidade com a criança. Como falaríamos as coisas? Como usaríamos a poesia do Manoel? Como usaríamos o povo da nossa terra? Quem usaríamos? Como encaixaríamos as muitas histórias? Muitos “comos” e depois de vários encontros chegamos ao nosso primeiro resultado “Eu pendurei um bem-te-vi no sol”. Um texto de 11 páginas em que nossas histórias estavam misturadas com Manoel. Apresentamos para Marcelo o texto e um caminho para encenação.

Ilustração baseada nos poemas de Manoel de Barros

Bernardo

Fizemos várias leituras. Quando por algumas questões burocráticas tivemos que voltar à mesa de estudo e recomeçar o texto. Marcelo acreditando na gente. Eu e o Manolo um pouco assustados sem saber por onde recomeçar. Mas, no nosso primeiro encontro decidimos juntos que iriamos contar a história de Bernardo.



Traçamos uma linha de pensamento e nós dois iriamos produzir textos próprios dentro do universo “Manoelesco”. No livro ele dizia “O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis”. Essa foi a frase que levamos com a gente. Pegávamos coisas simples, porém nossas, e brincávamos com as palavras e os rumos tomados. Em menos de um mês tínhamos “A Fabulosa História do Guri-Árvore”. Um texto com 21 páginas e que estávamos apaixonados. Apresentamos para o Marcelo e ele se animou com o novo resultado. Partimos para sala de ensaio.

Logo do espetáculo – Criação: Vaca Azul

Novamente, fizemos muitas leituras, algumas juntos aos professores da SEMED, nos emocionamos em quase todas, colhemos vários depoimentos, nos abraçamos e rimos muito de tudo que o texto nos trazia. Descobrimos juntos, com aquelas pessoas que nos honraram escutando nosso texto, que aquelas palavras simples tinham afeto.

Abílio e Palmiro em formação com os profes da SEMED

Começamos o processo de montagem. Esse foi doloroso e com muito aprendizado. Marcelo parecia um maestro de uma orquestra. Eu e Manolo tentávamos seguir o ritmo dos Guris. Juntos fomos criando uma partitura difícil de ser executada e que, muitas das vezes, me fazia duvidar se eu daria conta. Mas conseguimos. Montamos o Guri! Com muita ajuda: Darlan pensando e executando o cenário com ajuda de todo o Fulano. Vini pesquisando a trilha, criando o visual do Guri-Árvore e sendo a voz de Bernardo. Carol Jordão mexendo nos nossos figurinos e criando o estandarte. Augustinho fazendo o banco e a árvore, além do nosso frete. Jair Damasceno sendo nosso narrador. Obrigado à todos por essa loucura boa!

Abílio (Manolo Schittcowisck) e Palmiro (Edner Gustavo) | 1ª Temporada

Estreamos em junho de 2019, um ano depois do início. Foi uma semana linda, descobrimos muitas outras coisas. Apresentamos em escolas, maternidade, shopping e em todos esses lugares fomos surpreendidos pela emoção e reação do público. Como uma “vózinha” que, após uma apresentação, com muita dificuldade foi até o palco com os olhos marejados e nos deu um abraço. Se eu não me engano era a primeira vez dela dentro de um teatro e ela tinha gostado muito. Finalizamos nossa estreia nesse dia. Aquele abraço delicado, com um “obrigado” dito por uma voz frágil e baixinha aqueceu nossos corações. Saímos felizes feito Guris.

Foi uma semana linda, descobrimos muitas outras coisas

Logo, quando voltamos de férias, o Fulano di Tal se despediu de alguns “fulanos”. Um deles foi o Manolo. Uma despedida triste, mas novos rumos estavam sendo tomados e isso era um bom motivo para sorrir. Marcelo convidou Vini para fazer Abílio. Voltamos a sala de ensaio e começamos a brincar de novo. Foi um processo lindo. Criamos muitas coisas novas, aproveitamos outras e levantamos muitas questões já para próxima temporada. Reestreamos com muita energia e trabalho. Montamos e desmontamos o cenário várias vezes, carregamos luz, cadeiras.... Enfim, foi uma semana de fazer teatro por inteiro, teatro de grupo, teatro que o Fulano faz. Foi incrível! O nosso Guri a cada dia cresce mais um pouquinho. Estamos engatinhando ainda, temos muita coisa para fazer, descobrir, trabalhar, ou seja, não vamos parar, sempre estaremos contando a história de Bernardo de maneira diferente e a cada vez mais amadurecida.

Abílio (Vini Ferreira) e Palmiro (Edner Gustavo) | 2ª Temporada

Amamos ser bocós. Sejamos mais bocós. O bocó não apenas vê o mundo, ele “transvê”. Dá valor as coisas imprestáveis e valoriza o simples, o pequeno, enferrujado, o sujo, a folha podre, as palavras trocadas de uma criança, as memórias distantes de uma infância. Tudo vira poesia. Um pedaço de terra, uma folha em branco, uma tela de pintura. Tudo vira lugar de ser bocó. Sejamos mais felizes, criativos, sejamos muitos, sejamos bocós. Viva Manoel de Barros! Viva o bocó! Viva o Guri-Árvore.

Vini Ferreira, Marcelo Leite e Edner Gustavo | Final Temporada

Agradecimentos Especiais:

Queria muito agradecer ao Marcelo Leite, nosso diretor, um ser de muita luz e amor, pela oportunidade e paciência durante todo o processo. Ser conduzido por ele é sempre uma delícia. Aprendemos de um tudo. Obrigado por criar o Fulano e nos permitir fazer parte disso tudo.

Sou muito grato pelo Manolo Schittcowisck, que foi meu companheiro durante um ano de sala de ensaio e longas mesas de estudos. Aprendi tanto com ele nesse processo. Guiou os nossos estudos de dramaturgia com muita humildade e vontade de ensinar.


Por fim, agradecer ao meu novo irmão Abílio (Vini Ferreira) que vem me ensinando e ajudando sempre. Estar na cena com ele é sempre gostoso e acredito que iremos terminar de escrever essa história juntos.


Obrigado a todos que fizeram parte desse processo. Temos muito caminho pela frente. Que a história desse Guri seja longa. Merda!




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